sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Confucionismo x Neoliberalismo - O sonho de Uzumaki

Os ensinamentos de Confúcio parecem impregnados na alma oriental. Certos princípios hierárquicos, o respeito e submissão à nobreza, a obediência cega ao poder do estado, tudo isso parece fazer parte dos valores assumidos por japoneses, chineses, coreanos e por aí vai...
Os animes, e outrora os tokusatsus muitas vezes foram e ainda são utilizados como instrumento de transmissão dessas doutrinas, além de alertar, por meio de linguagens repletas de simbolismos, sobre a ameaça da invasão ocidental. Quem nunca assistiu às sagas dos Irmãos Ultra, combatendo as invasões alieníginas, e não percebeu que a ideia de livrar a humanidade dos monstros vindos do espaço não era na verdade uma mensagem figurada chamando a atenção para o perigo da crescente influência americana na economia, na cultura e na sociedade japonesas?
Mas assistindo ao Naruto, me surpreendi com a forma que os valores do Confucionismo são questionados. Uzumaki Naruto é um fracassado, orfão, sem linhagem e aparentemente sem talento algum. Seu sonho de se tornar Hokage é sustentado sobretudo por sua obstinação. Ao levar adiante esse sonho às custas de prática e teimosia, o desajeitado e irritante (no bom sentido) menino loiro praticamente empunha a bandeira do neoliberalismo. rompe com as barreiras formais da tradição oriental, que separa a elite do resto do povo de forma ainda mais intensa e intransponível do que na maioria dos países ocidentais.
No capítulo que antecede a vitória de Naruto sobre Neiji Hiuuga, é interessante observar como o autor reproduz um dos maiores preceitos do Confucionismo, o respeito ao destino: se você nasceu nas castas inferiores, deve se conformar com sua condição e submeter-se aos membros da elite pois a estes foi dado o poder inquestionável legado pela tradição. E a vitória de Naruto é construída sobretudo por meio da malandragem, de uma estratégia matreira, típica do animal que tem a forma do sete caudas: a raposa. Intencional ou não, a escolha da raposa como animal da kiuubi se encaixa perfeitamente na ideia de um caçador ardiloso, que tem na dissimulação e na persistência a chave para o triunfo.
O que os autores tentam transmitir às crianças com este simbolismo? A certeza de que os valores tradicionais não mais servem aos interesses do mundo atual? O que vale mais? A herança da nobreza, ou a persistência daquele que não tem um título mas possui uma habilidade?

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