terça-feira, 4 de outubro de 2011

Conan, o Bárbaro 2011







Um raro exemplo de remake que supera o original...
Independentemente dos recursos mais avançados de que o cinema dispõe hoje, Conan, o Bárbaro (2011), é uma refilmagem de um clássico do cinema de ação que consegue captar de forma muito mais profunda e precisa o clima dos quadrinhos que o inspirou. No original de 1980, que projetou Arnold Schwarznegger e rendeu, inclusive, uma continuação, faltou muito da ambientação da fantástica revista em quadrinhos. Com arte em preto e branco, desenhada por gênios como John Buscema, Ernie Chan e Alfredo Alcala, entre muitos outros, A Espada Selvagem de Conan (The Savage Sword of Conan) foi um marco dos comics da Marvel. E marcou época tanto nos EUA quanto no Brasil, onde, durante a década de 80, chegou a ser o carro chefe das publicações da principal editora americana de HQs.
O que se questiona aqui, no entanto, é: adaptações de quadrinhos para o cinema ficam melhores quando se mantém a ideia original ou quando se cria uma linguagem nova, mais moderna e adequada ao cinema? Afora questões de mercado, bilheteria, patrocinadores etc, os produtores deveriam valorizar o mérito artístico do formato original? Neste caso, parece que a segunda premissa prevaleceu. Na versão dirigida por Marcus Nispel, é de impressionar como o diretor se sai bem ao reproduzir o clima sombrio e violento de A Espada Selvagem, sem, contudo, cair na apelação. O mundo de Conan é violento (aliás, como é, foi, e sempre será o mundo real), e é também um mundo antigo, portanto, rude e obscuro. A ambientação nessa segunda produção segue à risca essas características. Tanto na Ciméria como no mundo Hiboriano as instalações são rústicas, e as pessoas endurecidas. O ambiente das tavernas foi excelentemente bem estilizado, com a atmosfera devassa de libações e danças sensuais num cenário enfumaçado e iluminado parcamente por tochas. E a performance de Jason Momoa também supera a de Arnold, no que diz respeito à interpretação. Mesmo tendo um corpo bem menos desenvolvido que o protagonista de “O Exterminador do Futuro” ele soube incorporar características do herói cimério que Schwarznegger não foi capaz de dramatizar. O austríaco trouxe para a tela apenas o aspecto físico de Conan, um corpanzil esplêndido, mas que não resume a essência do guerreiro bárbaro. A Espada Selvagem iniciava-se sempre com o célebre fragmento das Crônicas da Nemédia, em que os feitos do bárbaro errante que se tornou rei de uma nação civilizada eram cantados:
Saiba, ó príncipe, que entre os anos em que as águas dos oceanos tragaram Atlântida, e entre os anos em que se ergueram os filhos de Aryas, houve uma era inimaginada repleta de reinos esplendorosos que se espalharam pelo mundo como miríades de estrelas sob o manto negro do firmamento. Nessa época, surgiu Conan, da Ciméria, um bárbaro de cabelos negros e olhos ferozes, ladrão sagaz, assassino frio, sujeito a enormes fases de melancolia e não menores fases de alegria...
“Sujeito a enormes fases de melancolia e não menores fases de alegria”, indica que Conan, a despeito de sua força prodigiosa e instintos selvagens, é uma personagem extremamente emotiva. Arnold não foi capaz de performatizar seu sorriso matreiro em conversas nada formais com meretrizes, ou o olhar arguto do guerreiro bronzeado a cobiçar as jóias de um templo sagrado para algum povo hiboriano, enquanto os acólitos, distraídos, louvavam respeitosamente suas divindades. Jason Momoa, embora iniciante e não sendo, cá entre nós, um talento singular, é mais expressivo e convincente, se pensarmos que Conan não é nem de longe um andróide assassino que obedece apenas à sua programação. Diga-se de passagem, o que me transformou em fã de Conan, o Bárbaro, ainda na minha tenra infância, foi justamente sua verossimilhança com um ser humano verdadeiro. O seu mundo é mítico, fantasioso, repleto de magia e monstros que às vezes chegam a picos de surrealismo. Entretanto, Conan é uma das personagens mais humanas dos quadrinhos, por conta de sua personalidade contrastante, seu humor volátil, sua maneira toda própria de julgar o mundo em que vive e as situações que a vida lhe apresenta. Nenhum homem é totalmente bom, nem totalmente mal, em sua essência. Grandes líderes religiosos ou políticos têm seus momentos de fraqueza e dúvida. Homens generosos e altruístas têm seus instantes de mesquinhez e usura. Criminosos incorrigíveis também possuem lapsos de compaixão, abnegação e generosidade. Conan possui uma personalidade composta por elementos bons e ruins, talvez pelo de fato de que, como declarou seu autor, Bob Howard, o guerreiro cimério ter sido uma composição de personalidades de homens que ele, um jovem Texano do interior, conheceu ao longo de sua breve vida (suicidou-se aos 30 anos, com um tiro na cabeça). Frequentando bares, docas e vários locais não muito salubres, Howard travou contato com toda sorte de homens, desde marinheiros e jogadores profissionais, até punguistas e criminosos perigosos. Observando a personalidade de muitos deles, o jovem escritor Texano extraiu diversas características de cada um, e no momento de conceber sua personagem, mesclou-as às aspirações positivas de sua própria personalidade de norteamericano médio, interiorano, cultivador de valores como lealdade, determinação e compromisso com a palavra dada. Conan é capaz de matar dezenas de homens e monstros infernais, de por abaixo um templo profano derrubando seus pilares com os próprios braços, de suportar a fome, o sol forte, a neve e o mar bravio com coragem e serenidade, mas chorou como uma criança, quando a mulher que amava morreu. Essa história (A Morte é Vermelha, ESC 57) é comovente e de uma dramaticidade única. Uma montanha de músculos, segurando uma formidável espada suja de sangue, olhando, com lágrimas nos olhos, o navio da pirata Bêlit se incendiando com o corpo de sua capitã. Voltando ao filme de 2011, outro aspecto que me agradou foi o design da produção. Sou um admirador do cinema de ação tradicional, e, embora entenda que a computação gráfica é uma ferramenta que veio para acrescentar, ainda dou preferência às boas e velhas maquetes, aos castelos e navios criados na raça e no talento dos miniaturistas. Os navios e os castelos do filme foram prodigiosamente feitos a mão, e, mesmo com o auxílio do computador, os cenários belíssimos não ficaram com aquele aspecto artificial de desenho animado, como acontece em filmes como 300 e o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (os quais adoro, não me entendam mal). O roteiro também foi muito bem escrito, não apresentando as falhas da produção de 1980. A história começa com Conan já como um guerreiro experiente, que rumou para o mundo civilizado por opção, e que não fez da vingança seu único objetivo de vida. Também os locais principais em que viveu suas aventuras, com suas características naturais (a neve na Ciméria, o deserto e o mar) foram apresentados ao longo do filme de maneira convincente. Um ponto que achei interessante foi a mudança no título de uma das cidades: nos quadrinhos, existe no mundo Hiboriano Zamora, “a cidade dos ladrões”. Os produtores em 2011 preferiram transferir a perífrase para Asgalun. Talvez não seja difícil entender o porquê. Ao que me consta, existe uma cidade ou região na Espanha com o nome de Zamora, e acredito que, por conta disso, o roteirista preferiu fazer essa pequena mudança para não criar constrangimentos com o público espanhol. Enfim, nada que afete o andamento nem a compreensão da história. Outro ponto forte do filme e a tórrida cena de amor entre Conan e a sacerdotisa, que embora muito sensual, não caiu na vulgaridade.
Recomendo o filme para a garotada, para que conheçam essa personagem tão interessante, órfã, pois seu criador morreu deixando-a sem herdeiros, com muitos roteiros incompletos, e que acabou sendo adotada por grandes escritores (Lin Carter, Sprague de Camp, que a usaram para criar histórias de cunho sócio-político) e principalmente pelo grande Roy Thomas, o melhor roteirista da Espada Selvagem, que nas “horas de folga” é nada mais nada menos do que Professor Universitário, lecionando Filosofia! Os mais jovens provavelmente assistirão ao filme classificando-o como mais uma produção do gênero “senhor dos anéis”. Para os fãs antigos, porém, essa refilmagem de 2011 é um presente inesperado que vai levá-los de volta à fantástica atmosfera de uma das maiores HQs já criadas.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dicas do Prof. Cris para uma boa redação:

Desnecessário se faz empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, conforme deve ser de ciência de V. Senhoria. Outrossim, tal prática advêm de esmero excessivo, e beira o exibicionismo narcisístico.

Evite abreviaturas etc.

Evite lugares comuns como o diabo foge da cruz.

Estrangeirismos estão out.

Tente dar um perdido nas gírias, mesmo que sejam a pampa , valeu?

Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar repetida e a repetição vai fazer com que a palavra seja repetida.

Não abuse das citações. Como costumava dizer meu pai: “Quem cita os outros não tem idéia próprias”.

Frases incompletas podem causar.

Não seja redundante, não há necessidade de se dizer a mesma coisa de formas diferentes, isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez. Em outras palavras, não fique repetindo a mesma ideia.

Não use siglas desconhecidas, conforme recomenda a AGOP.

O exagero é 100 bilhões de vezes pior do que a moderação.

Evite frases longas, pois dificultam a compreensão das ideias nelas contidas e apresentam mais de uma ideia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçando, assim, o leitor a separá-las em seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis,o que, afinal, não deveria ser parte do processo de leitura

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os Vampiros estão na moda (ou sempre estiveram?)


O mito do vampiro nunca esteve tão em alta como nos últimos anos. Livros, filmes, séries de tv e toda gama de produtos que surgem relacionados a cada uma das obras invadem o mercado e fazem uma figura lendária e fleumática se tornar quase uma personagem possível socialmente, como os heróis detetives, militares ou lutadores de artes marciais. Nunca ninguém provou que eles realmente existem, jamais assistimos a um a entrevista real com um vampiro em algum talk show, nem pegamos um avião com um grupo deles em viagem de férias. Todavia, há a velha máxima de que toda lenda tem um fundo de verdade. Para que o mito dessa criatura que suga sangue humano e vive para sempre na escuridão possa ter chegado aos nossos ouvidos, o mínimo que se pode é imaginar que em algum momento da história, pessoas ou grupos humanos devem ter visto criaturas (humanas ou não) com um comportamento similar, se não totalmente monstruosos como vemos nos filmes, pelo menos agindo fora daquilo que se espera ser uma conduta usual. É provado que o canibalismo já aconteceu e ainda acontece no mundo, mesmo à parte de situações extremas como o desastre nos Andes, que levou os passageiros de um avião acidentado a se alimentarem da carne dos passageiros falecidos na queda. A psicopatia leva o homem a picos de bizarrice e bestialidade, e isso é inegável. Contudo, o que sempre me chamou a atenção no que diz respeito à lenda dos vampiros é o charme, uma grande dose de glamour que procura se acrescentar à concepção dessas personagens. O vampiro normalmente é um nobre, ou ao menos um indivíduo muito rico e socialmente influente. Salvo algumas exceções, como o Nosferatu, em geral são belos e galantes, e se saem bem com as mulheres. Uma atriz certa vez declarou que as mulheres se sentem seduzidas pela figura do vampiro, por ele ser uma mistura do pai poderoso e imortal com o amante irresistível. Bem, há fantasias para todos os gostos. Mas deixando o romantismo e os fetiches de lado, e observando as peças que compõem o mito, imagino que a ideia de um ser demoníaco que atacava vítimas nas florestas europeias poderia muito bem ter uma origem alegórica, e de fundo até mesmo satírico, mais do que a idealização satânica que a mente humana associa a essa lenda. É claro que relatos sobre tais criaturas não surgiram apenas na Europa, aliás, parecem presentes em praticamente todo o mundo, mas o vampiro que chegou até nós possui características bastante ligadas à cultura daquele continente Uma crítica bem humorada, até cáustica, a um parasita social, parece muito evidente na metáfora “sugar sangue humano” para manter-se vivo eternamente. A simbologia do sangue associado à vida poderia levar a se compreender o vampiro como o nobre ocioso que perpetua o poder e os privilégios de sua classe social por meio da exploração do trabalho dos pobres e indefesos, especialmente jovens. Vale lembrar que, nas Idades Média e Moderna, a expectativa de vida das pessoas era muito baixa, e que o trabalho árduo conduzia rapidamente a doenças e mortes precoces. É raro ver histórias nas quais os vampiros atacam anciões. Em geral as vitimas são jovens, muitas delas donzelas, conduzidas à depravação e ao declínio de seus valores cristãos em troca da vida eterna no plano carnal. O satanismo diretamente ligado à imagem do vampiro se encaixa na dualidade espírito versus carne, uma vez que ele representa uma subversão do caminho existencial do homem. Sendo assim, numa época em que o analfabetismo era viçoso e natural entre a humanidade, fica difícil imaginar que uma construção de metáforas e símbolos tão intrincados pudesse ter sido criada por um camponês. A mensagem da cruz e dos símbolos sagrados como elementos capazes de destruir as criaturas das trevas e seu legado faz pensar que as referidas alegorias foram de fato maquinadas por clérigos, não eles próprios vítimas da exploração daquela classe, mas sim sendo o grupo que a vislumbrava como uma ameaça à sua própria parcela de poder. É sabido que nobreza e Igreja nem sempre andaram de mãos dadas, e a disputa pelo controle dos jogos políticos em uma nação não raramente conduz ao que se poderia chamar de guerra ideológica, como vemos hoje em dia entre partidos políticos de ideologias conflitantes. E a aversão ao alho? Nos filmes antigos uma das formas de se repelir o vampiro era com uma coroa de alhos, que causaria ojeriza ao monstro. Com base na História, há relatos que falam sobre a maneira desdenhosa que certos nobres se referiam aos camponeses, os quais “cheiravam a alho”. Sarcástico atribuir essa fobia a uma criatura das trevas, mas é isso mesmo que a torna alegórica e escarnecedora. Factual é que a construção da lenda se arrastou ao longo dos tempos, e cada elemento que a compõe foi inserido gradativamente, portanto seria difícil especificar os valores morais e filosóficos vigentes em cada época. Mas se pensarmos no momento atual, observamos que a ponte entre o vampiro e a sociedade liga os caminhos que conduzem principalmente ao domínio da estética. Vampiros são jovens e belos, sensuais e poderosos, sendo exatamente esses os valores preconizados pelos padrões de beleza e comportamento que estão em voga hoje, na era da cirurgia plástica, onde a busca pela perfeição das formas gera verdadeiras máscaras humanas. Os vampiros, então, surgem como entes metafóricos dentro desta mentalidade, base para um estereótipo de figura estética, uma vez que na ficção, personificam o desejo oculto do homem de viver para sempre, com um corpo que não envelhece, não adoece, se a regenera e não perde o vigor. Num mundo em que os cientistas falam de transplantes de órgãos clonados, de prolongar a vida até os 130, 150 anos, onde se cogita o desenvolvimento de técnicas de transplante de memória de um cérebro para outro, a imagem de um ser com características citadas acima tem o mesmo apelo à mente humana que os ideais da cavalaria exerciam sobre os homens comuns na antiguidade. Muitos copiavam os padrões de comportamento de um cavaleiro sem sequer ter visto um na vida!
Numa sociedade que busca a perfeição e a eternidade na Terra, e que transforma cretinos como os “Doutores Califórnia” em celebridades, os vampiros são, por forma e conteúdo, os heróis e arquétipos mais adequados.

Nosferatu de 1922



Esse filme do Mornau é um dos que mostram o vampiro monstruoso e disforme, talvez pelo clima pesado que a humanidade vivia na época (entre as duas grandes guerras). A segunda versão, com Klaus Kinski, também é boa, embora o ator não tenha conseguido a mesma performance sinistra do astro da primeira versão.

Hellsing Anime Japonês


Muito legal esse anime sobre uma organização de vampiros que combate os vampiros "maus" para proteger a humanidade. Só não protege os brasileiros, uma vez que o protagonista vem ao Rio caçar nazistas escondidos e acaba trucidando uma unidade inteira do BOPE.

Trabalho de Tradução

Olá, amigos e leitores, publiquei a baixo uma tradução minha para um mini conto de mistério. Sempre quis trabalhar como tradutor, e enquanto as oportunidades não surgem, vou usar o blog para experiências. Conto demais com vossa opinião, seja com elogios ou críticas. Boa leitura e obrigado

Espíritos

O primeiro a aparecer é o Blue. Mais tarde, aparece o White, e depois aparece o Black, e antes de tudo começar aparece o Brown.
Brown iniciou-o na atividade, Brown ensinou-lhe os macetes, e quando Brown envelheceu, Blue assumiu o comando. E assim a história começa. O lugar é a cidade de Nova York, a época é o presente, e nem um nem outro vai mudar. Blue vai para o seu escritório todos os dias e senta-se à sua mesa, esperando que algo aconteça. Por muito tempo, nada acontece, e então um homem chamado White entra porta adentro, e é como a história começa.
O caso parece bastante simples. White quer que Blue siga um homem chamado Black, e fique de olho nele pelo tempo que for necessário. Enquanto trabalhava para Brown, Blue fez muitas campanas, e essa não parece diferente, talvez até mais fácil que a maioria.
Blue precisa do trabalho, ouve White e não faz muitas perguntas. Ele presume se tratar de um caso conjugal e, portanto, White é um marido ciumento. White não entra em detalhes. Quer um relatório semanal, ele diz, enviado para uma certa caixa postal, digitado e impresso em duplicata, em páginas de largura e comprimento determinado. Uma ordem de pagamento será enviada semanalmente a Blue via correio eletrônico. White então diz a Blue onde Black mora, quais as suas características físicas e assim por diante. Quando Blue pergunta a White quanto tempo ele acredita que o caso durará, White diz não saber. Apenas envie os relatórios, ele diz, até novas instruções.

Ghosts

First of all there is Blue. Later there is White, and then there is Black, and before the beginning there is Brown. Brown broke him in, Brown taught him the ropes, and when Brown grew old, Blue took over, that is how it begins. The place is New York City, the time is the present, and neither one will ever change. Blue goes to his office everyday and sits at his desk, waiting for something to happen. For a long time, nothing does, and then a man named White walks through the door, and then is how it begins.
The case seems simple enough. White wants Blue to follow a man named Black and to keep an eye on him for a long as necessary. While working for Brown, Blue did many tail jobs and this one seems no different, perhaps even easier than the most.
Blue needs the work and he listen to White and then doesn’t ask many questions. He assumes it’s a marriage case and then White is a jealous husband. White doesn’t elaborate. He wants a weekly report, he says, sent to such and such a postbox number, type out in duplicate on pages so long and so wide. A check will be sent every week to Blue in the email. White then tells Blue where Black lives, what he looks like and so on. When Blue asks White how long he thinks the case will last, White says he doesn’t know. Just keep sending the reports, he says, until further notice.

Auster, Paul. Ghosts. In: The New York Trilogy. Penguin Books. NY, 1990

segunda-feira, 28 de março de 2011

Robocop: prenúncio do declínio de Detroit


Não me canso de falar da obra de Frank Miller. Além do Cavaleiro, Ronin e Sin City também são análises da condição humana de um teor reflexivo indiscutível. Mas não poderia deixar de comentar um de seus trabalhos mais geniais e mais negligenciados do ponto de vista crítico, talvez por conta da maneira aparentemente superficial com que foi levado ao cinema.
Ainda era menino quando assisti ao primeiro Robocop. Americanóide, ultraviolento, chocante e absolutamente comercial, num primeiro momento. Naquela época, eu não poderia nem de longe compreender a simbologia oculta na figura do policial máquina, ressuscitado e transformando numa arma ambulante, para fazer cumprir a lei e a ordem, e “proteger os inocentes”. Realmente, foi só muitos anos mais tarde, vendo a continuação, é que parei para observar com mais cuidado a concepção da personagem, e principalmente, avaliar a natureza simbólica da obra de Miller. Robocop 2, de 1990, é um dos filmes com o maior número de mendigos a aparecer na tela ao longo de sua quase 1 hora e meia de produção. A sujeira, as pichações, os tipos esfarrapados jogados nas calçadas, que a maioria dos espectadores não nota enquanto fixa o olhar nas personagens principais e nas cenas de ação, são uma constante na fita, e materializam a visão de decadência que o filme preconiza. Quando assistimos a filmes Holywoodianos, uma das coisas que mais chamam a atenção e a beleza visual do cenário, ruas limpas, calçadas e pavimentos impecáveis, aquelas paredes imaculadas dos edifícios. Em Robocop 2 ocorre tudo justamente ao contrário. Detroit, a celebrada capital do automóvel, aparece ferida, mal tratada, com o asfalto esburacado e cheio de remendos, ironizando o título que até então celebrava a cidade. Carros e asfalto são elementos metonimicamente indissociáveis, como poderia então, a cidade símbolo da indústria automobilística americana ter vias tão deploráveis? A profecia de Frank Miller sobre o destino de Detroit parece óbvia. Com o crescimento das montadoras asiáticas e a falta de empenho do governo americano em criar uma política de competitividade para encarar os novos concorrentes, o resultado não poderia ser muito diferente do que vimos, via inúmeras reportagens, na década passada: uma Detroit assustadoramente deteriorada, sofrendo um êxodo de trabalhadores incomum até mesmo para os padrões ocidentais contemporâneos, enquanto os que permaneceram na cidade encaravam uma vertiginosa desvalorização dos imóveis (sobrados à venda por 100 dólares), além da absoluta falta de empregos e perspectivas, tudo motivado por um fator preponderante: a falência da indústria local.
A visão de Miller e sua capacidade observadora chega a ser assombrosa. E a partir desse ponto torna-se ainda mais compreensível a estrutura alegórica que alimenta a criação do policial Murphy. A sombra de um homem valoroso, profissional competente, trabalhador e cumpridor de seus deveres, recoberta pelo invólucro de aço da indústria. Eu acabei traçando um paralelo com uma crônica de Machado de Assis (Bondes Elétricos), na qual dois burros que simbolizavam os ex-escravos travam um diálogo lúgubre e desesperançado, até que chegam à conclusão de que não são nada além de “bens da companhia”. O mesmo drama parece ser explorado por Frank Miller na construção de metáforas sequenciais que compõem Robocop e sua jornada. Quem realmente se importava com o homem atrás das máquinas que produziam todos aqueles veículos? Quem realmente se importava com as recordações do policial Murphy, que permaneceram em sua mente mesmo após o processo que o transformou em andróide? Os grandes empresários da indústria automobilística em algum momento pensaram no futuro dos seus operários? Ou esses homens eram apenas “bens da companhia?”
Um dos momentos mais tristes da história do cinema de ação é aquele em que o Robocop conversa com sua ex-esposa e a faz enxergar a dura realidade. Murphy estava morto. Ele, o Robocop, apenas carregava seu semblante, como uma pretensa “homenagem”; e mentindo, diz a ela que não a conhece. Contudo, ainda possuí em sua mente as imagens de sua vida enquanto homem, as recordações da mulher, do filho e do lar, mas é forçado a ocultar tudo isso e, mais ainda, os seus sentimentos e emoções humanas, por conta de sua nova condição. Aqui, artisticamente, Miller retoma um pesadelo tratado em muitos contos e romances ao longo dos tempos: o amargo tormento da humanidade negada, como Frankenstein, Quasímodo e tantas outras personagens da literatura universal. A corrupção, a politicagem e o traficante de drogas mirim (que faz o “Caixa-Baixa” de Cidade de Deus parecerem anjinhos) são pontos altos da continuação, que supera muito em conteúdo o primeiro filme da saga.
Até mesmo os menos instruídos em teoria literária poderiam parar para pensar sobre o porquê de uma história como Robocop ter como cenário Detroit, e não Nova York, Los Angeles ou Chicago, mais usadas como pano de fundo para o desenrolar de filmes policiais ou de ação. Mesmo cidades fictícias como Gotham, Metropolis ou Central City seriam mais adequadas para o desenvolvimento dessa trama. Mas, é claro, Frank Miller não escreve roteiros superficiais, para divertir e esquecer depois de algum tempo; ele escreve, acima de tudo, para nos fazer pensar. Robocop nada mais é do que a representação de uma cidade abandonada, de uma era de progresso e esperança acabados, de sonhos interrompidos...

O gangster mirim é uma aberração que faz os meninos do Caixa-baixa, de Cidade de Deus parecerem a personificação da inocência

Um dos momentos mais tocantes do filme: o oficial da OCP pergunta a Murphy: "Você acha que ainda pode dar amor à sua mulher? O amor de um homem?" e põe à sua frente um espelho, para que o Robocop veja sua nova imagem.