segunda-feira, 28 de março de 2011

Robocop: prenúncio do declínio de Detroit


Não me canso de falar da obra de Frank Miller. Além do Cavaleiro, Ronin e Sin City também são análises da condição humana de um teor reflexivo indiscutível. Mas não poderia deixar de comentar um de seus trabalhos mais geniais e mais negligenciados do ponto de vista crítico, talvez por conta da maneira aparentemente superficial com que foi levado ao cinema.
Ainda era menino quando assisti ao primeiro Robocop. Americanóide, ultraviolento, chocante e absolutamente comercial, num primeiro momento. Naquela época, eu não poderia nem de longe compreender a simbologia oculta na figura do policial máquina, ressuscitado e transformando numa arma ambulante, para fazer cumprir a lei e a ordem, e “proteger os inocentes”. Realmente, foi só muitos anos mais tarde, vendo a continuação, é que parei para observar com mais cuidado a concepção da personagem, e principalmente, avaliar a natureza simbólica da obra de Miller. Robocop 2, de 1990, é um dos filmes com o maior número de mendigos a aparecer na tela ao longo de sua quase 1 hora e meia de produção. A sujeira, as pichações, os tipos esfarrapados jogados nas calçadas, que a maioria dos espectadores não nota enquanto fixa o olhar nas personagens principais e nas cenas de ação, são uma constante na fita, e materializam a visão de decadência que o filme preconiza. Quando assistimos a filmes Holywoodianos, uma das coisas que mais chamam a atenção e a beleza visual do cenário, ruas limpas, calçadas e pavimentos impecáveis, aquelas paredes imaculadas dos edifícios. Em Robocop 2 ocorre tudo justamente ao contrário. Detroit, a celebrada capital do automóvel, aparece ferida, mal tratada, com o asfalto esburacado e cheio de remendos, ironizando o título que até então celebrava a cidade. Carros e asfalto são elementos metonimicamente indissociáveis, como poderia então, a cidade símbolo da indústria automobilística americana ter vias tão deploráveis? A profecia de Frank Miller sobre o destino de Detroit parece óbvia. Com o crescimento das montadoras asiáticas e a falta de empenho do governo americano em criar uma política de competitividade para encarar os novos concorrentes, o resultado não poderia ser muito diferente do que vimos, via inúmeras reportagens, na década passada: uma Detroit assustadoramente deteriorada, sofrendo um êxodo de trabalhadores incomum até mesmo para os padrões ocidentais contemporâneos, enquanto os que permaneceram na cidade encaravam uma vertiginosa desvalorização dos imóveis (sobrados à venda por 100 dólares), além da absoluta falta de empregos e perspectivas, tudo motivado por um fator preponderante: a falência da indústria local.
A visão de Miller e sua capacidade observadora chega a ser assombrosa. E a partir desse ponto torna-se ainda mais compreensível a estrutura alegórica que alimenta a criação do policial Murphy. A sombra de um homem valoroso, profissional competente, trabalhador e cumpridor de seus deveres, recoberta pelo invólucro de aço da indústria. Eu acabei traçando um paralelo com uma crônica de Machado de Assis (Bondes Elétricos), na qual dois burros que simbolizavam os ex-escravos travam um diálogo lúgubre e desesperançado, até que chegam à conclusão de que não são nada além de “bens da companhia”. O mesmo drama parece ser explorado por Frank Miller na construção de metáforas sequenciais que compõem Robocop e sua jornada. Quem realmente se importava com o homem atrás das máquinas que produziam todos aqueles veículos? Quem realmente se importava com as recordações do policial Murphy, que permaneceram em sua mente mesmo após o processo que o transformou em andróide? Os grandes empresários da indústria automobilística em algum momento pensaram no futuro dos seus operários? Ou esses homens eram apenas “bens da companhia?”
Um dos momentos mais tristes da história do cinema de ação é aquele em que o Robocop conversa com sua ex-esposa e a faz enxergar a dura realidade. Murphy estava morto. Ele, o Robocop, apenas carregava seu semblante, como uma pretensa “homenagem”; e mentindo, diz a ela que não a conhece. Contudo, ainda possuí em sua mente as imagens de sua vida enquanto homem, as recordações da mulher, do filho e do lar, mas é forçado a ocultar tudo isso e, mais ainda, os seus sentimentos e emoções humanas, por conta de sua nova condição. Aqui, artisticamente, Miller retoma um pesadelo tratado em muitos contos e romances ao longo dos tempos: o amargo tormento da humanidade negada, como Frankenstein, Quasímodo e tantas outras personagens da literatura universal. A corrupção, a politicagem e o traficante de drogas mirim (que faz o “Caixa-Baixa” de Cidade de Deus parecerem anjinhos) são pontos altos da continuação, que supera muito em conteúdo o primeiro filme da saga.
Até mesmo os menos instruídos em teoria literária poderiam parar para pensar sobre o porquê de uma história como Robocop ter como cenário Detroit, e não Nova York, Los Angeles ou Chicago, mais usadas como pano de fundo para o desenrolar de filmes policiais ou de ação. Mesmo cidades fictícias como Gotham, Metropolis ou Central City seriam mais adequadas para o desenvolvimento dessa trama. Mas, é claro, Frank Miller não escreve roteiros superficiais, para divertir e esquecer depois de algum tempo; ele escreve, acima de tudo, para nos fazer pensar. Robocop nada mais é do que a representação de uma cidade abandonada, de uma era de progresso e esperança acabados, de sonhos interrompidos...

2 comentários:

  1. "A profecia de Frank Miller..." boa!

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  2. Esse Robocop é foda heim...
    Um forte abraço meu brother Cris.
    dj Cleber"Geração da Periferia e Tribunal McS"

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