sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Prisão de Clink, localizada no sul de Londres, foi um presídio medieval infame por suas horrendas máquinas de tortura. Hoje, é uma atração turística, fielmente restaurada para que os visitantes percebam a real condição dos prisioneiros daquela época sombria. É possível visitá-la utilizando o metrô londrino. Desça na estação London Bridge e você verá o London Dungeon, uma atração turística famosa na capital britânica. Ignore-a dessa vez, e siga rumo oeste até Montague Close. Passe pela Catedral de Southwark e pela réplica de um navio do século XVI, o Golden Hind, e pegue a estreita travessa chamada Clink Street. A entrada para a prisão fica à esquerda. Passe pela porta e desça as escadas rumo às celas. Um lamento pavoroso emana por sobre as cabeças dos visitantes enquanto eles descem os degraus: trata-se de um detento, aprisionado em uma jaula de metal!
Os visitantes de hoje podem caminhar pelas celas iluminadas por velas e examinar os aparelhos de tortura que outrora aterrorizaram os prisioneiros. Há um poste de flagelação, ao qual os prisioneiros eram acorrentados e açoitados. Depois há uma cadeira de tortura e o “prendedor de ladrões” – uma longa e misteriosa vara de metal com três ganchos. Existe ainda um cinto de castidade e uma terrível “bota”, ou esmagador de pés. Os detentos eram obrigados a calçar essa bota, que depois recebia óleo ou água e pedaços de madeira. Então, o guarda da prisão aquecia a bota e...
A Prisão de Clink foi usada do século XII ao século XVIII. Fazia parte do Palácio de Winchester, lar do poderoso Bispo de Winchester. A área, agora chamada Southwark, era notória nos tempos medievais por seus inúmeros bordéis e prostitutas. De fato, a prisão foi uma das primeiras a receber mulheres prisioneiras. Os visitantes podem aprender muito sobre as terríveis histórias daqueles tempos.
A vida em Clink era brutal. As punições incluíam tortura, solitária e uma dieta a base de pão e água. Os guardas da prisão surravam os detentos com varas e usavam correntes para impedi-los de dormir. Assassinatos eram comuns. Contudo, prisioneiros com dinheiro ou amigos do lado de fora, frequentemente pagavam aos oficiais para melhorar suas condições. Os guardas arranjavam quartos, camas, velas e comida em troca de um bom pagamento. Eles também aceitavam dinheiro para permitir que os prisioneiros trabalhassem fora da prisão.
Em 1450, a prisão foi destruída por manifestantes furiosos, que queimaram o edifício e mataram os guardas. A rebelião foi dominada e uma nova prisão construída. Em 1530, o Rei Henrique VIII legalizou a fritura de mulheres em óleo quente – punição para aquelas que matavam os seus maridos. Nos séculos XVI e XVII, a prisão de Clink foi utilizada para deter dissidentes religiosos, tanto católicos como protestantes, muitos dos quais morreram de fome. Um grupo de puritanos que sobreviveram à prisão viajou para a América no Mayflower, em 1620. A prisão foi finalmente destruída em 1780, por manifestantes religiosos.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Para pessoas muito ocupadas, sem tempo para leitura

O poder de síntese!!! William Shakespeare Romeu e Julieta Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga fodida, muita gente se machuca. Então, um padre filho da puta tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Fim. ********
Gustave Flaubert: Madame Bovary. 778 páginas. Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Fim. ******
Leon Tolstoi Guerra e Paz. Paris, Ed.Chartreuse. 1200 páginas Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro. Fim. ********
Marcel Proust: À La recherche du temps perdu. (Em Busca do Tempo Perdido) Paris, Gallimard. 1922. 1600 páginas. Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486 vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág.1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos - e pronto. Fim. ********
Luís de Camões: Os Lusíadas. Editora Lusitânia Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa super gente fina), ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Fim. *********
William Shakespeare Hamlet Essa é foda. Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que, entretanto, se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Fim. ******** Sófocles: Édipo-Rei Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Parada muito doida. Fim. ********* William Shakespeare Othelo Um rei otário, tremendo zé-roela, tem um amigo muito filho da puta que só pensa em fazê-lo de bobo. O malandro, não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O zé mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por Ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Fim.

sábado, 14 de julho de 2012

Os grandes (e mal conhecidos) fillmes de Depp

Que Johnny Depp é fantástico como ator, e hábil em escolher grandes trabalhos para atuar não é novidade. Contudo, acho que alguns de seus papéis que não deixam nada a desejar a Edward Mão de Tesoura, Willie Wonka e Jack Sparrow são desconhecidos por muita gente. Por conta disso, resolvi apresentá-los aqui, principalmente para a galera que nasceu a partir dos anos 90. Pouca gente sabe disso, mas Johnny Depp fez uma ponta em um dos maiores clássicos do cine de horror. Trata-se de um ícone dos anos 80, A Nightmare On Elm Street, que recebeu no Brasil o título de “A Hora do Pesadelo”.
Depp está ainda bem novo, e pouco aparece no filme, sendo uma das primeiras vítimas do asqueroso e canastrão Freddy Krueger. Não que a história não seja interessante, mas as muitas continuações acabaram carnavalizando a personagem, transformando o que era terror em palhaçada.
Mesmo assim vale uma conferida, mesmo que seja para ver Depp pós-adolescente...
Mas imperdível mesmo é Cry Baby. Os fãs de Rockabilly têm motivos de sobra para adorar esse filme, também dos anos 80, no qual Johnny Depp, além de atuar muito bem como rocker rebelde, ainda canta e toca guitarra sem dublês.
Boas também são as aparições de Iggy Pop e de Traci Lords (ex-atriz pornô), a trilha sonora é recheada com muito rock’n roll do início ao fim, e o filme tem um clima despretensioso e saudosista. Outra obra prima do começo da carreira de Depp é Donnie Brasco, de 1997. A trama não podia ser melhor: a história verídica de um agente do FBI, infiltrado por nada menos que cinco anos na máfia americana. O agente Donnie Brasco, vivido por Depp, tão bem desempenha suas funções junto à bandidagem, que mesmo após o fim da operação, com todos os malandros presos, o grupo ao qual pertencia Brasco não acreditava que ele fosse o delator, certos de que Donnie havia sido vítima de uma armação.
Johnny Depp, embora ainda muito jovem, está impecável nesse papel, pois representa um policial que realmente existiu e pôde assim mostrar toda sua expressividade sem máscaras ou a maquiagem pesada dos heróis que, posteriormente, encarnou tão bem.
Outro atrativo deste grande filme é a presença inigualável de Al Paccino, no papel do mafioso “padrinho” de Depp. Sua performance também é magistral, as cenas em que contracena com Johnny Depp são memoráveis. O filme tem cenas fortes de violência e tensão, mas em nenhum momento é apelativo ou exagerado como os filmes atuais. Outro excelente longa protagonizado por Johnny é Profissão de Risco, que, inexplicavelmente, passou meio despercebido no Brasil. Conta a história real de George Jung, um criminoso norteamericano que começou sua vida de marginal vendendo maconha nas praias de seu país, e acabou tornando-se lá o braço direito do famigerado traficante colombiano Pablo Escobar. A fita tem ainda Penélope Cruz no papel da mulher de George.
A principal característica de George Jung era sua diplomacia. Em nenhum momento pratica ações violentas e chega a virar o rosto diante dos assassinatos que presencia. Um momento do filme que faz rir é quando, preso pela primeira vez, sob acusação de tráfico interestadual de drogas, George responde à juíza: eu apenas cruzei uma linha imaginária (a fronteira entre dois estados americanos) carregando algumas plantas (a erva maldita).
Sua relação afetuosa com a filha e conturbada com a esposa contribui para o aspecto de veracidade que o roteiro busca salientar. E a cena final, sobre a qual não darei detalhes, é surpreendente, e mexe com o espectador. Uma frase, dita então por Jung, define a queda de muitos criminosos: “Meu grande erro foi permitir que minha ambição se tornasse maior que o meu talento”. Mas se pararmos para refletir, não são apenas os marginais que cometem esse erro... Aí foi a dica de quatro grandes filmes com Johnny Depp que muitos fãs não conhecem, espero que apreciem, comentem e mandem sugestões. Em breve, continuarei o trabalho de metaficção trazendo a análise material novo!!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Parabéns ao bom e velho ROCK 'N ROLL

Quase 60 anos se passaram desde que o Rock’ n Roll se tornou a música oficial da juventude, e até hoje muita gente não sabe o que significa essa expressão. Como professor de Inglês, vou dar uma pista: são dois verbos, usados no imperativo. To Rock significar balançar para frente e para trás. To Roll quer dizer “rolar”. Imagina algo que começa com um movimento de vai e volta, e que acaba num “rolo”. É isso mesmo que vocês estão imaginando. Rock’ n Roll significa transar, numa linguagem de subentendidos. Retirado das letras dos Blues compostos nos anos 40, o termo causava escândalo por sua conotação sexual, embora não fosse considerado um palavrão pelo fato de as palavras Rock e Roll terem outros significados primordiais. Talvez muitos se espantem, mas o Rock surgiu como Dance Music, exatamente como a Disco dos anos 70, o Hip Hop dos anos 80 e o eletrônico. E teve duas consequências imediatas e de suma importância no que diz respeito a mudanças de comportamento. Foi o estopim da revolução sexual, como o próprio nome sugere, por meio da dança selvagem que antes era privilégio dos adultos (Swing, Twist, Charleston – sobre isso aguarde meu próximo ensaio) ao atingir os jovens e mesmo os adolescentes. E na também na questão da integração racial. Vale lembrar que em meados dos anos 50, o grande Martin Luther King capitaneou o movimento de direitos civis pelos direitos dos negros nos EUA, movimento que atingiu dimensões gigantescas e que de fato começou a mudar as regras do jogo.
E nesse período que aparece o jovem interiorano, motorista de caminhão, de origem humilde, que impulsiona através de sua voz e sua dança a música que antes era dos guetos, por todos os States e depois mundo afora. Elvis Presley é vítima de muito preconceito hoje em dia. Percebo que muitos fãs de Rock, principalmente fãs de Heavy Metal e Progressivo, o desprezam como um aproveitador, que se apropriou da música negra e fez sucesso só por ser bonito e branco. Eu gostaria de levar essas pessoas que pensam assim para o interior dos Estados Unidos nos idos da década de 50. Para eles compreenderem o que é realmente o racismo, e perceberem então a coragem e a ousadia do jovem de Tupelo ao tocar guitarra e cantar um ritmo que era considerado uma verdadeira afronta à sociedade branca daquela época. Elvis tomou uma iniciativa que talvez tenha sido crucial para a eclosão do estilo Rock’ n Roll, e arriscou-se a sofrer toda sorte de perseguição e injúria para levar sua carreira adiante, sem nem ao menos saber se teria êxito naquilo. É muito cômodo pra nós hoje em dia dizer que ele foi apenas um aproveitador, mas só quem conhece o contexto sócio-político do período sabe do que estou falando. Elvis Presley correu o risco até de ser assassinado por algum racista louco e fundamentalista, e sua contribuição ao movimento iniciado por King foi enorme, ao montar bandas e corais com artistas de todas as raças e mostrar para o mundo que aqueles preconceitos imbecis estavam ruindo.
Com relação a assimilação indébita da cultura negra, o que poderíamos dizer dos Rolling Stones? Também não copiaram a música negra do sul dos Estados Unidos? Isso, por acaso, torna menos brilhante suas carreiras que já dura meio século? Vale lembrar que a maioria dos negros americanos também não queriam que sua música fosse tocada por brancos. Então, o papel de artistas negros como B. B. King, Chuck Berry, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson e outros tantos que excursionaram pela Inglaterra a partir dos anos 60 foi de suma importância para a difusão e consolidação do ritmo no velho continente.
O Rock já serviu como catalisador de muitas expressões da humanidade. E não apenas dos jovens, uma vez que as gerações envelheceram ouvindo esse estilo. Nos anos 60, houve o flerte com as drogas, num momento em que a juventude já conquistara a tão sonhada liberação sexual, e naquele momento buscava a construção de uma nova identidade, uma possibilidade diferente de exercer seu papel na sociedade.
Nos anos 70, sexo e drogas já não eram mais tabus, e por conta disso, a violência é que se tornou o alicerce ideológico, talvez motivada pela ascenção do terrorismo como forma de manifestação política. O movimento punk, entretanto, foi muito mais do que isso, se pensarmos em termos puramente musicais. Representou uma volta às origens, repudiando a opulêmcia e a artificialidade que começavam a descaracyterizar o outrora rebelde e energético Rock'n Roll
Os anos 80 representam, neste contexto, o desencanto, a descrença e o pessimismo que a juventude encarava sua época. Foi a época que o rock se tornou pop, o sexo passou a ser assombrado pelo fantasma da AIDS e as drogas, cada vez mais fortes e fáceis de se encontrar, perdiam seu glamour deixando claro seu papel destrutivo na vida de qualquer um. Talvez se explique assim a onda Dark, depois chamada Gótico, e o nascimento do Emocore que só hoje em dia se popularizou no Brasil. Nos anos 80 se destacaram os Smiths e The Cure, que embora de formas melancólica, levaram adiante a tradição do verdadeiro rock. Simples mas bem inspirado, sem os exageros virtuosísticos do Heavy e do Rock Progressivo, falando dos dramas, aspirações e frustrações de ser jovem.
Muitos dos meus amigos vão me criticar, mas axo que o Nirvana foi a última grande banda, pois surgiram antes da popularização da internet, ainda no vinil, e faziam um som visceral e cheio de energia, e a atitude auto-destrutiva de Kurt Cobain personificou a imagem do rock'n roller atormentado e suicida, visto que tantos músicos de rock acabaram se matando voluntaria (por suicídio) ou involuntariamente (via drogas, álcool etc) Vou encerrar deixando aqui um apanhado dos meus artistas preferidos do rock, poderia dizer, meu TOP 10 pra vcs FELIZ DIA MUNDIAL DO ROCK!!! ELVIS THE KING http://www.youtube.com/watch?v=8sS9zuIi470&list=AL94UKMTqg-9CbGwkf12a4S32Vhikzy0ru&index=10&feature=plcp ROY ORBISON http://www.youtube.com/watch?v=CYhMrtZM1WA BUDDY HOLLY http://www.youtube.com/watch?v=RC48DcEnJIw JOHNNY BURNETTE http://www.youtube.com/watch?v=6LUGNC8miRo RAMONES http://www.youtube.com/watch?v=zGgfHZ02I2k STRAY CATS http://www.youtube.com/watch?v=V8fXPIBkP68 THE SMITHS http://www.youtube.com/watch?v=k5CltsEN8DQ THE METEORS http://www.youtube.com/watch?v=3394J9AIVT8 TOY DOLLS http://www.youtube.com/watch?v=3tgSXaWqzMI ROLLING STONES http://www.youtube.com/watch?v=fPVUa29kHu8

O Corvo - A justa homenagem ao grande Allan Poe

Quando pensamos em ídolos ou heróis, quase sempre a ideia de força, vigor e invulnerabilidade vem às nossas cabeças. Claro, alguém que admiramos deveria ter qualidades típicas de um vencedor. E o final feliz para essas figuras veneráveis é tido para nós como indissociável na vida daqueles que nos servem como parâmetros e modelos no mundo. Contudo, o mundo real nem sempre permite que pessoas talentosas, criativas e atuantes tenham exatamente esses finais felizes que seria de se esperar. Quando penso no rei Elvis, morrendo sozinho, doente e aborrecido em seu castelo em Memphis, ou em Dumont cometendo suicídio, após ser recusado pela mulher que amava, talvez por ser “esquisito” e não se enquadrar nesses torpes padrões de aparência preconizados pela sociedade em todos os tempos, ou ainda, em John Lennon, assassinado em frente à esposa, na porta de casa, depois de tantas obras primas compostas para a humanidade, fico a imaginar: como é contraditório que pessoas que fizeram tanto por esse mundo, acabem seus dias de forma tão lúgubre. Já assisti a La Bamba inúmeras vezes, mas ainda assim, no final, quando Buddy Holly, Richie Valenz e o Big Bopper se dirigem para o avião, tenho vontade de entrar pela tela e dizer a eles: - Não, não vão, continuem com a gente, esse voo não vai acabar bem... No fundo, é doloroso ver um artista que amamos tendo um fim triste. Algum de nós não poderia ter tentado tirar Dee Dee Ramone do vício da heroína, ou dado um abraço em Del Shannon momentos antes de ele se suicidar, lhe dizer que ele não estava sozinho, que gostaríamos que ele pegasse o violão em vez de um revólver e tocasse Runnaway para nós? Artistas, gênios e cientistas nem sempre têm vidas brilhantes como suas obras.
Assim, para aliviar um pouco esse sentimento de extravio e de melancolia, a ficção pode funcionar algumas vezes como um analgésico para essa dor da alma, corrigindo a incongruência entre autor e obra talhada nos livros e nas contradições da história. De maneira que se torna muito interessante ver filmes, ou livros nos quais esses grandes homens ressurgem e, junto a personagens fictícios, têm sua trajetória reescrita de uma forma que nos agrada mais. Gostei muito de O Corvo, com John Cusack encarnando o grande Edgard Allan Poe, poeta e escritor como poucos, mas que viveu uma vida amarga, mergulhada no torpor do álcool, permeada por tragédias pessoais como o abandono, a morte de entes queridos e a áspera assistência da solidão. Poe nunca conseguiu encontrar seu rumo no mundo prático, não enriqueceu nem constitui família, e muito menos pode-se dizer que tenha sido consistentemente feliz. Porém, sua contribuição para as letras está entre as maiores em todos os tempos. Principalmente para o romance detetivesco, do qual é considerado o precursor. Em abril de 1841, Poe inaugurava a narrativa policial ao publicar, em jornal, “Os Assassinatos da Rua Morgue”, novela que é quase um manual de teoria investigativa.
Em O Corvo, de James McTeigue,essa história serve de estopim para a trama, na qual um assassino serial utiliza-se dos contos de Allan Poe para assassinar pessoas nas ruas de Boston, poucos dias antes da morte do escritor. Qualquer expectador pode se divertir e até se impressionar com o filme, mas os leitores de Poe certamente vão apreciá-lo mais, pela própria familiaridade com a obra, que é recorrente no desenrolar do filme. Na trama, o próprio escritor é convocado pela polícia, no início como suspeito, e por fim como colaborador ativo nas investigações. E o roteiro se aproveita de forma muito oportuna das informações históricas, pois, com o é sabido, os últimos dias do autor de “Berenice” permanecem uma incógnita. Pouco ou quase nada se sabe sobre o que Edgard Allan Poe fez em sua última semana de vida, apenas que foi encontrado balbuciando frases desconexas em um banco de praça, momentos antes de falecer. Desta forma, o filme se baseia nesses dias em que ele esteve desaparecido para inseri-lo na trama, de forma a transformá-lo num herói ao ajudar na caça ao criminoso.
A cena na taverna, logo no início, é de uma acidez louvável, por mostrar o quanto Edgar Allan Poe foi rejeitado em seu próprio país. O único cliente do bar que conhecia seus poemas era um francês. Se o fato ocorreu ou não, é inegável que na França foi dada a continuidade ao gênero criado por ele, visto que o escritor Emille Gaboriau, com suas excelentes personagens Perre Tabarette e Monsieur Lecocq, deu prosseguimento ao romance policial que mais tarde criaria raízes na Inglaterra.
Por fim, pode-se dizer que O Corvo, enquanto filme, funciona como um resgate histórico por meio da metaficção, que reescreve de forma menos dolorosa a sombria existência de alguém que foi um mago das letras, mas que em vida não encontrou o reconhecimento que merecia, nem tampouco a felicidade que todos buscam nesse mundo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os Girassóis de Plutão

Em breve trarei a conclusão de "Os girassóis de Plutão", aguardem!!

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Crônica dos Monólogos Bilingues

Vem o grande literato, com seu carrão importado, pela larga e movimentada avenida. Súbito, fecha o sinal. Da calçada, o esfarrapado mendigo o enxerga.
- Carrão bunitu, todo excrementado, dotô indinherado cum certeza. Num vai mi dexá sem um trocadim, quem sabe inté uma bulacha que o fio largô.
Parado no cruzamento, o grande escritor, dramaturgo, ensaísta, jornalista e crítico literário percebe a figura andrajosa caminhando em sua direção:
- Esse é um cidadão de bom gosto. Sabe se vestir de acordo com o clima de nosso país. Ternos, gravatas, coletes... Que tortura, nesse calor! Esse indivíduo, ao contrário, domina a arte do bem trajar: sem camisa (claro, ele pode, está com o corpo de um maratonista, nem uma gordurinha sobrando). E olha as calças, têm várias aberturas para a circulação de ar! Ideia genial de algum grande estilista. E as sandálias? Uma de cada cor. Que estilo!
- Baum dia, seu dotô, disculpa di incomodá o sinhô...
-Não incomoda, concidadão, a bem da verdade, concedo-lhe congratulações pela indumentária!
O mendigo gaguejou:
- Pela minha cara?
- Seu trajar, ajustadíssimo a essa rotunda soalheira. Vejo que sua tez tem um tom trigueiro que deixaria minha consorte rubra de inveja.
O mendigo animou-se, pensando consigo: “Esse dotô é estranjero, num fala bem nossa linga”. “Mió ainda, os gringo é mais mom aberta”.
- O sinhô num sabe, num ganhei nada hoji, poca peça pa vendê, e baxô o pressu do aliminu...
O literato pensou rápido: “Vender”...O preço do alumínio... Nosso asceta aqui é do ramo de vendas. E voltando-se ao andarilho:
- Seu gerente devia instruí-lo a usar “corretagem” ou “consultoria” e evitar o termo “vender”. Um recurso semântico que exerce forte apelo coercitivo sobre o interlocutor. E sua dicção é truncada, embora me soe audível. Evite, mancebo, os tais vícios de linguagem inerentes a determinado tipo de atividade, que alguns profissionais acabam incorporando ao léxico de sua fala cotidiana. As empresas deveriam possuir tutores aptos a orientar melhor seus corretores. Quanta falta de visão!
O pobre diabo não ousou fazer qualquer comentário. O literato prosseguiu, sorridente:
- Então, varão, opera no ramo da metalurgia? Os negócios vão mal?
Por que não muda de ramo? Corretagem de imóveis, por exemplo?
- Ah, seu dotô, acorrentá os móvis pa eu num dá não. Percisa as ferramenta. Perfiro continuá na recicrage, ninguém da impregu pa homi que nem eu.
O literato sorri. O rapaz está se referindo a seu curriculum vitae. “Perfiro”! Que pronúncia peculiar para “perfil”... “Recicrage”, na certa são exemplos desses termos importados e mal pronunciados que os profissionais de marketing utilizam em profusão. Brasileiro tem preguiça de traduzir vocábulos e expressões estrangeiras e mais preguiça ainda de aprender a pronúncia correta. Acaba inventando um dialeto novo. Não é de se estranhar que este jovem não tem conseguido efetuar uma venda. Como convencer o comprador com tão pouco domínio sobre a língua? Regionalismos, má dicção, estrangeirismos...
O mendigo deslocou ligeiramente um piolho de sua morada, e arriscou:
- Intão, sinhô, será que da pa mi resovê um pobrema? To desdi manhã sem ponhá nada na boca... O dotô tem alguma coisa pa ajudá eu?
O literato pensou consigo: “Ponhar” provavelmente ele quis dizer “pomar”. Uma provável referência a suas origens interioranas. Sabia que era do interior! “Pobrema”! Bem, há indivíduos na TV que cometem esses atropelos... Mas “ajudar eu”, é um pavoroso desvio sintático. Um homem tão simpático, com um gosto refinado para se vestir, não será difícil resolver essas suas pequenas deficiências. Do porta-luvas retirou um grosso compêndio: ESTILO E TÉCNICA DO BEM FALAR. Obra genial de seu amigo Professor Cornélio Paganno. “É tudo que um bom profissional de vendas precisa para aperfeiçoar sua prosa”.
- Aqui está, meu amigo. Ponha o conteúdo disto em sua boca. Far-lhe-á muito bem.
Disse isso, aproveitou o sinal verde, avançou com sua máquina possante. Satisfeito com a boa ação.


Sentado na beira da calçada, o mendigo pensa que no país daquele homem as pessoas comem umas coisas muito estranhas. “Perfiria mais uma linguissa frita, uma coixinha... Mais mió qui nada!” Pensou isso, dobrou mais uma página, a de número 11, pôs de uma vez na boca, e mastigou lentamente.
- Com um cafezim dicia mió...
Moral da história:
Quando a palestrante no oratório da sarjeta é a fome, nem mil versos parnasianos superam a poesia concreta de um ovo colorido, no mais naturalista dos botequins.

Por que devemos odiar os cães?




Conversa entre duas tias a respeito de animais de estimação: “Não gosto de gatos, só de cachorros. O gato, se você dá um chute nele... nunca mais quer saber de você. Agora, o cachorro, você pode dar um pontapé que daqui a pouco ele ta te lambendo de novo”.
Há milhares de anos esse animal, o cão, frequenta nosso meio e vive junto à humanidade. Reza a lenda que o homem o adotou por sua fidelidade, como parece bem claro na declaração que inicia esse ensaio. Ledo engano. O cão adotou o homem, e isso à custa de muita determinação, porque o homem primitivo nunca o viu com bons olhos. O lobo, para os antigos, era um ente demoníaco, mensageiro de desgraças e transmissor de doenças. O cachorro, como nós o conhecemos, descende de uma das três classes em que se dividia a sociedade lupina. Entre estes, se destacavam o líder, o mais hábil entre todos, e mais dois ou três, também exímios caçadores, que ficavam próximos a ele só esperando por um vacilo seu para tomar-lhe o lugar. Qualquer semelhança com o mundo profissional e corporativo de nossa sociedade é só coincidência. Existia depois um pelotão intermediário, de lobos que também sabiam caçar, embora não com tanta habilidade. E no rodapé dessa estrutura de classe, uma ralé incompetente para a caça. O fato é que isso os tornava muitas vezes inaptos a sobreviver, uma vez que, abatida a presa, a ralé era a última a se alimentar, ficando quase sempre apenas com os ossos. Não é difícil de se compreender o porquê da satisfação de um cachorro quando lhe é dado um osso. Animais bastante ardilosos e observadores, os lobos logo perceberam que era muito mais vantajoso se estabelecer próximo aos povoados humanos, pois o homem primitivo não possuía ferramentas adequadas para o corte de carne, deixando entre os ossos dos animais abatidos muita substância que era a garantia de sobrevivência aos lobos incompetentes. Logo abandonavam as alcateias e se instalavam próximos aos povoados, esperando serem alimentados pelo homem. Este, com o tempo, percebeu que era uma vantagem tê-los ao redor das vilas, uma vez que, como nos dias atuais, faziam um barulho ensurdecedor ante a aproximação de estranhos. Assim iniciou-se, lentamente, num processo que se acredita ter durado cerca de 3000 anos do primeiro contato até a plena integração, a relação aparentemente simbiótica entre a humanidade e este asqueroso parasita social.






Alguns alegam que ele protege suas propriedades, o que pode ser verdade se o agressor for um tipo muito ordinário de marginal. Se um ser humano pouco pode fazer diante de uma arma e de um assassino determinado, o que se dirá de uma criatura imbecil dotada de um QI irrisório? Do contrário, os cães são muito eficazes em ferir pessoas nas ruas, quando saem de portões abertos por seus donos idiotas e irresponsáveis. O célebre vizinho “megacontribuinte”, que acha que paga mais impostos do que os demais e então a rua é uma extensão de seu quintal. E depois, a vítima ainda tem de ouvir baboseiras do tipo: “Ah, o bicho não tem culpa”, “É irracional”, “Nunca mordeu ninguém”. E amargar horas na fila de um PS em busca de socorro. Mas ao meu ver, a principal razão para essa associação do homem moderno com o cachorro tem a ver com a vaidade humana. Lembro-me de um cretino que conheci tempos atrás que dizia que o atrativo do cão era o fato de ele ser bobo. Daí depreende-se que essa relação surge da necessidade do homem (e da mulher, naturalmente) em ter um “bobo da corte”, um palhaço que lhe faz graças e o adula em troca de ossos, biscoitos e outras frugalidades. Junte-se a isso a declaração da tia que aparece no início do texto, a partir da qual é possível se fazer uma análise do perfil psicológico de muitas pessoas que idolatram cães. Indivíduos que se acham no direito de chutar os outros em seus momentos de raiva ou frustração, e, além disso, acham que os que são maltratados têm obrigação de lhes perdoar sob pena de serem vistos como “felinos” insensíveis.

ELEFANTE

Eu sou um elefante
Filosofando, passante, inadequado.
Eu sou um elefante
Caminhando, errante, indomado...

Eu sou um elefante
Deslizando, gigante, desajeitado,
Eu sou um elefante
Empedernido, rotundo, arrastado...

Eu sou um elefante
Esmagando flores com as patas
Vagueando em paisagens de sonho
Tateando com a tromba as matas
Vendo a vida com olhos tristonhos

Eu sou um elefante
Quebrando tudo sem querer
Eu sou um elefante
Vivendo e morrendo sem saber...

Eu sou um elefante
Não consigo coçar minhas costas
Eu sou um elefante
Indesejado e sem respostas

Eu sou um elefante
Assustando crianças de colo
Assistindo à aurora dos dias
Assentando as pegadas no solo
Abanando as orelhas vadias


Elefante, elefante...
Paquiderme no centro da cena
Eu sou um elefante
Uma lembrança selvagem, uma imagem serena...



Derrelito


Oscilo sobre as ondas
Abaixo, acima, incerto
À frente o mar aberto
Sem ponto de partida
Sem porto de chegada
Velas infladas
Pelo vento
Impelem ânsias através do tempo
Mares sem pérolas, ilhas sem tesouros
Convés de almas surdas
Solidão da popa à proa
No silêncio azul ecoa:

O pranto, a espuma, a esperança!

O navegar que não se cansa
Por tormentas, calmarias
Um errar dia após dia
Sem rota e sem bandeira
Sem espólios, nem caveira
Sereias mudas submergem, frias
Ao longe se encerra o horizonte cinzento...
Sobra o sal que lambe a quilha
Sob um sol que não se põe!
Por onde for que leve a sorte
Pra onde for que a brisa sopre
Galeão fantasma, nau à deriva
Vacilando esquecida, nos azuis do tempo...

Poema Infantil

“Não tive filhos; não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”
M. de Assis


Criança do Alumínio

Flagelado famélico fruto
Da irresponsabilidade
Paisagem da cidade
Já na tenra idade
Ocupado em reciclar
Condenado a encarnar
O velho ciclo da vida

E busca nessa ida
Pelo beco ou avenida
O vasilhame vazio
Nada no chafariz
Come o que cai do nariz
Chama ao diabo de “tio”

De capeta a anjinho
Em fração de segundo...

Obscura pintura de nós mesmos
Vagueando a esmo
Pela margem do mundo