sexta-feira, 13 de julho de 2012

O Corvo - A justa homenagem ao grande Allan Poe

Quando pensamos em ídolos ou heróis, quase sempre a ideia de força, vigor e invulnerabilidade vem às nossas cabeças. Claro, alguém que admiramos deveria ter qualidades típicas de um vencedor. E o final feliz para essas figuras veneráveis é tido para nós como indissociável na vida daqueles que nos servem como parâmetros e modelos no mundo. Contudo, o mundo real nem sempre permite que pessoas talentosas, criativas e atuantes tenham exatamente esses finais felizes que seria de se esperar. Quando penso no rei Elvis, morrendo sozinho, doente e aborrecido em seu castelo em Memphis, ou em Dumont cometendo suicídio, após ser recusado pela mulher que amava, talvez por ser “esquisito” e não se enquadrar nesses torpes padrões de aparência preconizados pela sociedade em todos os tempos, ou ainda, em John Lennon, assassinado em frente à esposa, na porta de casa, depois de tantas obras primas compostas para a humanidade, fico a imaginar: como é contraditório que pessoas que fizeram tanto por esse mundo, acabem seus dias de forma tão lúgubre. Já assisti a La Bamba inúmeras vezes, mas ainda assim, no final, quando Buddy Holly, Richie Valenz e o Big Bopper se dirigem para o avião, tenho vontade de entrar pela tela e dizer a eles: - Não, não vão, continuem com a gente, esse voo não vai acabar bem... No fundo, é doloroso ver um artista que amamos tendo um fim triste. Algum de nós não poderia ter tentado tirar Dee Dee Ramone do vício da heroína, ou dado um abraço em Del Shannon momentos antes de ele se suicidar, lhe dizer que ele não estava sozinho, que gostaríamos que ele pegasse o violão em vez de um revólver e tocasse Runnaway para nós? Artistas, gênios e cientistas nem sempre têm vidas brilhantes como suas obras.
Assim, para aliviar um pouco esse sentimento de extravio e de melancolia, a ficção pode funcionar algumas vezes como um analgésico para essa dor da alma, corrigindo a incongruência entre autor e obra talhada nos livros e nas contradições da história. De maneira que se torna muito interessante ver filmes, ou livros nos quais esses grandes homens ressurgem e, junto a personagens fictícios, têm sua trajetória reescrita de uma forma que nos agrada mais. Gostei muito de O Corvo, com John Cusack encarnando o grande Edgard Allan Poe, poeta e escritor como poucos, mas que viveu uma vida amarga, mergulhada no torpor do álcool, permeada por tragédias pessoais como o abandono, a morte de entes queridos e a áspera assistência da solidão. Poe nunca conseguiu encontrar seu rumo no mundo prático, não enriqueceu nem constitui família, e muito menos pode-se dizer que tenha sido consistentemente feliz. Porém, sua contribuição para as letras está entre as maiores em todos os tempos. Principalmente para o romance detetivesco, do qual é considerado o precursor. Em abril de 1841, Poe inaugurava a narrativa policial ao publicar, em jornal, “Os Assassinatos da Rua Morgue”, novela que é quase um manual de teoria investigativa.
Em O Corvo, de James McTeigue,essa história serve de estopim para a trama, na qual um assassino serial utiliza-se dos contos de Allan Poe para assassinar pessoas nas ruas de Boston, poucos dias antes da morte do escritor. Qualquer expectador pode se divertir e até se impressionar com o filme, mas os leitores de Poe certamente vão apreciá-lo mais, pela própria familiaridade com a obra, que é recorrente no desenrolar do filme. Na trama, o próprio escritor é convocado pela polícia, no início como suspeito, e por fim como colaborador ativo nas investigações. E o roteiro se aproveita de forma muito oportuna das informações históricas, pois, com o é sabido, os últimos dias do autor de “Berenice” permanecem uma incógnita. Pouco ou quase nada se sabe sobre o que Edgard Allan Poe fez em sua última semana de vida, apenas que foi encontrado balbuciando frases desconexas em um banco de praça, momentos antes de falecer. Desta forma, o filme se baseia nesses dias em que ele esteve desaparecido para inseri-lo na trama, de forma a transformá-lo num herói ao ajudar na caça ao criminoso.
A cena na taverna, logo no início, é de uma acidez louvável, por mostrar o quanto Edgar Allan Poe foi rejeitado em seu próprio país. O único cliente do bar que conhecia seus poemas era um francês. Se o fato ocorreu ou não, é inegável que na França foi dada a continuidade ao gênero criado por ele, visto que o escritor Emille Gaboriau, com suas excelentes personagens Perre Tabarette e Monsieur Lecocq, deu prosseguimento ao romance policial que mais tarde criaria raízes na Inglaterra.
Por fim, pode-se dizer que O Corvo, enquanto filme, funciona como um resgate histórico por meio da metaficção, que reescreve de forma menos dolorosa a sombria existência de alguém que foi um mago das letras, mas que em vida não encontrou o reconhecimento que merecia, nem tampouco a felicidade que todos buscam nesse mundo.

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